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domingo, 7 de janeiro de 2018

Por que o estado exige o poder de controlar a moeda

Por que o estado exige o poder de controlar a moeda

Imagine que você está no comando do estado, o qual é definido como uma instituição que possui o monopólio da jurisdição de seu território, sendo o tomador supremo de decisões judiciais para todos os casos de conflito, inclusive os conflitos envolvendo o estado e seus próprios funcionários.  

Adicionalmente, e em consequência desta característica citada, você possui também o direito de tributar, isto é, de determinar de maneira unilateral o preço que seus súditos têm de lhe pagar para que você efetue essa tarefa de tomar decisões supremas.

Agir sob estas restrições — ou melhor, sob esta falta de restrições — é o que constitui a política e as ações políticas.  Consequentemente, já deveria estar claro desde o início que a política, por sua própria natureza, sempre significará transgressões, fraudes e delitos.  Não do seu ponto de vista, é claro, uma vez que você está no comando do estado; mas sim do ponto de vista daqueles que estão sujeitos ao seu jugo de juiz supremo.  Previsivelmente, você irá utilizar sua posição para se enriquecer à custa de todas as outras pessoas.

Mais especificamente, é perfeitamente possível prever quais serão suas atitudes e políticas específicas em relação à questão da moeda e do sistema bancário.
Suponha que você governe um território cuja economia já se desenvolveu além do estágio primitivo do escambo.  Ou seja, onde um meio comum de troca — isto é, o dinheiro — já está sendo utilizado.  De início, é fácil ver por que você estaria particularmente interessado no dinheiro utilizado e em questões monetárias em geral.  Como administrador do estado, você pode em princípio confiscar o que você desejar e proporcionar a si próprio uma renda imerecida, a qual foi obtida com o trabalho alheio.  Porém, em vez de confiscar vários bens de consumo ou bens de capital, você irá naturalmente preferir confiscar diretamente o dinheiro.  Pois o dinheiro, sendo o bem mais facilmente comercializável e mais amplamente aceito de todos, permite a você a maior liberdade possível para gastar sua renda como quiser, com a maior variedade possível de bens.  Por conseguinte, os tributos que você impuser sobre a sociedade serão tributos pagáveis em dinheiro, sejam eles impostos sobre a propriedade ou sobre a renda.  Seu desejo é maximizar suas receitas tributárias.

No entanto, ao tentar fazer isso você irá rapidamente encontrar algumas dificuldades bem espinhosas.  Com o tempo, suas tentativas de aumentar ainda mais sua renda tributária irão encontrar problemas: as maiores alíquotas de impostos não resultam em maiores receitas, mas sim em menores.  Sua renda — seu dinheiro para ser gasto — começa a declinar, pois os produtores, sobrecarregados com impostos cada vez mais altos, simplesmente passam a produzir menos.

Nesta situação, você tem apenas uma opção para aumentar ou pelo menos manter seu atual nível de gastos: pedir dinheiro emprestado.  E para isso você tem de ir aos bancos — daí o seu interesse especial também nos bancos e no setor bancário.  Se você pegar dinheiro emprestado dos bancos, estes bancos irão automaticamente ter um genuíno interesse no seu bem-estar futuro.  Eles farão de tudo para que você continue operante, isto é, eles irão querer que o estado dê continuidade às suas atividades espoliativas.  E dado que os bancos tendem a ser participantes essenciais de uma sociedade, tal apoio certamente é algo benéfico para você.  Por outro lado, e agora um lado negativo, se você pegar dinheiro emprestado dos bancos, eles não apenas irão querer que você quite o empréstimo, como também irão querer que você pague juros sobre o total emprestado.

Portanto, a questão que surge para você, o soberano, é: Como posso me livrar destas duas restrições, a saber, da resistência tributária que se manifesta na forma de receitas em queda e da necessidade de pegar dinheiro emprestado junto aos bancos e pagar juros para eles?

Não é muito difícil ver qual é a solução derradeira para o seu problema.
Você pode conquistar a sua desejada independência em relação aos pagadores de impostos e aos bancos apenas se você se estabelecer como o detentor do monopólio territorial da produção de dinheiro.  No seu território, somente você pode produzir dinheiro.  Mas isso ainda não é suficiente.  Pois enquanto o dinheiro for um bem cuja produção é dispendiosa (como no caso do ouro, por exemplo), você terá apenas despesas adicionais caso decida assumir sua produção.  De maior importância, portanto, é você se fazer valer de sua posição monopolista para reduzir os custos de produção e a qualidade do dinheiro para o mais próximo possível de zero.  Em vez de dinheiro de qualidade dispendiosa, como ouro ou prata, você deve procurar fazer com que pedaços de papel sem nenhum valor, e que podem ser produzidos a custo praticamente zero, se transformem em dinheiro.  (Normalmente, ninguém aceitaria pedaços de papel sem nenhum valor como forma de pagamento.  Pedaços de papel são aceitáveis como pagamento somente quando representam títulos de reivindicação sobre outra coisa — por exemplo, títulos de propriedade.  Em outras palavras, você terá de substituir pedaços de papel que representam títulos de propriedade sobre dinheiro genuíno por pedaços de papel que não representam titularidade sobre absolutamente nada.)

Sob condições concorrenciais, isto é, se todo mundo fosse livre para produzir dinheiro, uma moeda que pudesse ser produzida a custo praticamente zero seria produzida até uma quantidade em que a receita marginal se igualasse ao custo marginal; e dado que o custo marginal é zero, a receita marginal — isto é, o poder de compra deste dinheiro — também seria zero.  Daí a necessidade de se monopolizar a produção do dinheiro de papel: para restringir sua oferta e, com isso, evitar condições hiperinflacionárias e o consequente abandono total do dinheiro em troca de “ativos reais” — o que faria com que todo o experimento não trouxesse vantagem alguma para você.

Uma vez monopolizada a produção de dinheiro de papel, você terá alcançado uma façanha que todos os alquimistas e seus patronos sempre sonharam alcançar: extrair algo valioso (dinheiro com poder de compra) de algo praticamente sem nenhum valor.  Que façanha!  É algo que não lhe custa praticamente nada para ser fabricado, mas que você pode utilizar para adquirir coisas genuinamente valiosas, como uma casa ou uma Mercedes.  E você pode realizar essas maravilhas não apenas para você próprio, mas também para seus amigos e conhecidos, os quais você repentinamente descobrirá serem muito mais numerosos do que você imaginava (dentre eles vários economistas, os quais diligentemente irão explicar ao público por que o seu monopólio é na verdade algo fabuloso para todos.)

Quais serão os efeitos?  Primeiramente, uma maior quantidade de dinheiro de papel não afeta de maneira alguma a quantidade ou a qualidade de todos os outros bens não-monetários que existem na economia.  Existem tantos bens agora quanto existiam antes da sua façanha.  Isto imediatamente refuta a noção — aparentemente abraçada pela maioria dos economistas convencionais, se não por todos — de que “mais” dinheiro pode de alguma forma aumentar a “riqueza social”.  Acreditar nisso, como o fazem todos aqueles que propõem uma política de crédito fácil como forma eficiente e “socialmente responsável” de acabar com os problemas econômicos, é acreditar em mágica; é acreditar que pedras — ou melhor, tiras de papel — podem ser transformadas em pães.

Ao contrário, esse dinheiro adicional que você imprimiu irá afetar a economia de duas maneiras.  De um lado, os preços dos bens e serviços serão maiores do que seriam sem essa sua mágica, e consequentemente o poder de compra por unidade de dinheiro será menor.  Em uma só palavra, o resultado será inflação.  E ainda mais importante: ao passo que essa maior quantidade de dinheiro não aumenta (ou não diminui) a quantidade total da riqueza social que existe atualmente (a quantidade total de todos os bens na sociedade), ela gera uma redistribuição da riqueza existente em favor de si próprio e de seus amigos e conhecidos — isto é, daqueles que recebem esse seu dinheiro antes de todo o resto da sociedade.  Você e seus amigos tornaram-se relativamente mais ricos (detêm agora uma fatia maior da riqueza social total) à custa do empobrecimento de todos os outros (os quais, consequentemente, agora têm menos).

O problema, para você e seus amigos, em relação a este arranjo institucional não é que ele não funciona.  Ele funciona perfeitamente, sempre em benefício seu (e de seus amigos) e sempre em detrimento de todo o resto.  Tudo o que você precisa fazer é evitar a hiperinflação.  Pois, neste caso, as pessoas abandonariam o seu dinheiro e passariam a utilizar ativos reais, desta forma privando você de utilizar sua varinha mágica.  O problema com o seu monopólio do dinheiro de papel, se é que há algum, é apenas o fato de que tal esquema será imediatamente percebido por terceiros e denunciado como a grande e criminosa extorsão que ele de fato é.

Mas este problema também pode ser superado se, além de monopolizar a produção do dinheiro, você também se tornar um banqueiro e entrar no ramo bancário criando um banco central.

Dado que você pode criar dinheiro de papel do nada, você também pode criar crédito do nada.  Com efeito, como você pode criar crédito do nada (sem a necessidade de ter antes de poupar), você pode oferecer empréstimos a taxas mais baixas que as oferecidas por quaisquer outras pessoas, até mesmo a juros zero (ou até mesmo a uma taxa negativa).  Com esta capacidade, não somente a sua dependência em relação aos bancos e ao sistema bancário é eliminada, como também você poderá tornar os bancos dependentes do seu arranjo e, por conseguinte, poderá formar uma aliança e uma cumplicidade permanente entre bancos e estado.  Você nem mesmo precisa se envolver no ramo da concessão de crédito.  Tal tarefa, e o risco que ela traz, pode perfeitamente ser deixada para os bancos.

O que você — o seu banco central — terá de fazer é simplesmente o seguinte: você vai criar crédito do nada e vai emprestar esse dinheiro, a juros abaixo de mercado, aos bancos.  Ao invés de você pagar juros aos bancos, agora são os bancos que irão pagar juros a você.  E os bancos, por sua vez, irão emprestar seu dinheiro recém-criado para seus amigos favoritos a juros um pouco maiores, porém ainda abaixo dos de mercado (lucrando sobre este diferencial).  Adicionalmente, para fazer com que os bancos fiquem especialmente entusiasmados para trabalhar com você, você poderá permitir que eles criem uma quantidade de crédito (na forma de depósitos em conta-corrente) maior do que o total que você já havia criado para eles (sistema bancário de reservas fracionárias).

Quais as consequências desta política monetária?  Em grande parte, são as mesmas que as de uma política de crédito fácil e barato: primeiro, uma política de crédito fácil também é inflacionária.  Mais dinheiro é colocado em circulação, os preços aumentam e o poder de compra do dinheiro se torna menor do que seria caso não tivesse ocorrido tal expansão creditícia.  Segundo, a expansão do crédito também não tem efeito algum sobre a quantidade ou a qualidade de todos os bens atualmente existentes na economia.  Ela não aumenta nem diminui a quantidade deles.  Mais dinheiro é apenas isso: mais papel.  Mais dinheiro não pode e nem vai aumentar a riqueza social.  Terceiro, crédito fácil também gera uma sistemática redistribuição de riqueza social em favor de si próprio — o banco central — e dos bancos que participam do seu cartel.  Você recebe juros sobre um dinheiro que você criou do nada a custo praticamente zero (em vez de um dinheiro que foi arduamente poupado).  Os bancos fazem o mesmo: cobram juros adicionais sobre o dinheiro que você emprestou para eles a um custo negligente.  Desta forma, tanto você quanto seus amigos banqueiros adquirem uma “renda imerecida”.  Você e os bancos enriquecem à custa de todos os “genuínos” poupadores (os quais recebem juros menores do que receberiam caso não tivesse havido essa injeção de crédito barato sua e dos bancos no mercado de crédito).

Por outro lado, também existe uma diferença fundamental entre uma política de “imprimir e gastar” e uma política de “imprimir e emprestar”.

Pra começar, uma política de crédito fácil altera a estrutura de produção — o que é produzido e por quem — de uma maneira extremamente significativa.

Você, o chefe do banco central, pode criar crédito do nada.  Você não precisa primeiro poupar dinheiro — isto é, reduzir seus próprios gastos se abstendo de comprar determinados bens não-monetários (como toda pessoa normal tem de fazer caso ela conceda empréstimos a alguém).  Você pode apenas ligar a impressora e, consequentemente, sobrepujar qualquer taxa de juros que esteja sendo cobrada pelos poupadores (fornecedores de crédito) em qualquer lugar do mercado.  Conceder crédito não exige nenhum sacrifício de sua parte (e é por isso que essa instituição é tão “legal”).  Se as coisas derem certo, você receberá juros positivos sobre o seu investimento de papel; e se elas não derem certo — bem, na condição de produtor monopolista de dinheiro, você sempre poderá compensar suas perdas muito mais facilmente do que qualquer outra pessoa: basta cobrir os prejuízos imprimindo ainda mais dinheiro de papel.

Sem custos e sem nenhum genuíno risco pessoal de prejuízos, você pode conceder crédito de maneira essencialmente indiscriminada para qualquer pessoa e para qualquer propósito, sem se preocupar com a capacidade creditícia do devedor ou com a racionalidade de seu plano empreendedorial.  Por causa desta sua política de crédito “fácil”, certas pessoas (em particular, bancos de investimento) que de outra forma não seriam consideradas suficientemente dignas de crédito, e certos projetos (em particular, de bancos e seus principais clientes) que não seriam considerados lucrativos mas sim imprevidentes ou excessivamente arriscados, acabam conseguindo crédito e sendo financiados.

Essencialmente, a mesma relação ocorre entre os bancos comerciais que fazem parte do cartel bancário.  Por causa do relacionamento especial entre você e eles, na condição de primeiros recebedores de seu crédito barato, os bancos também podem oferecer empréstimos a outros emprestadores a juros abaixo dos de mercado — e se as coisas derem certo, todos se dão bem; se as coisas derem errado, eles podem contar com a sua prestimosa ajuda — na condição de produtor monopolista de dinheiro — para socorrê-los, da mesma maneira que você socorre a si próprio sempre que há problemas financeiros: imprimindo dinheiro.  Correspondentemente, os bancos também serão menos discriminadores na seleção de seus clientes e de seus planos empreendedoriais, e serão mais tendentes a financiar pessoas “erradas” e projetos “errados”.

E há uma segunda e significativa diferença entre uma política de “imprimir e gastar” e uma política de “imprimir e emprestar”, e essa diferença explica por que a distribuição de renda e de riqueza em favor de si próprio e de seus amigos banqueiros, a qual é desencadeada por políticas de crédito fácil, assume a forma específica de um ciclo econômico temporal — isto é, de uma fase inicial de aparente prosperidade geral (na qual se espera aumentos na renda e na riqueza futuras) seguida por uma fase de amplo empobrecimento (quando a prosperidade do período do boom revela-se uma ampla e dispersa ilusão).

Este ciclo econômico é a consequência lógica — e fisicamente necessária — do crédito criado do nada, do crédito sem nenhum lastro em poupança, do crédito fiduciário (ou seja lá como você queira rotulá-lo) e do fato de que todo investimento demora a maturar — sendo que, somente mais tarde, em algum ponto futuro, é que ele irá se comprovar bem sucedido ou não.

A razão de haver ciclos econômicos é tão elementar quanto é fundamental.  Robinson Crusoé pode emprestar um peixe (o qual ele não consumiu) para Sexta-Feira.  Sexta-Feira pode converter essa poupança em uma rede de pesca (ele pode comer o peixe enquanto constrói a rede), e então, com a ajuda da rede, Sexta-Feira, em princípio, torna-se capaz de pagar seu empréstimo junto a Robinson, mais juros, e ainda obter lucro na forma de um peixe adicional para ele próprio.  Porém, isso seria fisicamente impossível caso o empréstimo de Robinson fosse apenas um pedaço de papel, denominado em peixes, mas não lastreado por uma genuína poupança de peixes — isto é, caso Robinson não possua nenhum peixe porque ele já consumiu todos.

Consequentemente, e necessariamente, Sexta-Feira irá fracassar em seu esforço empreendedorial.  É claro que, em uma simples economia de escambo, tal trapaça se torna imediatamente aparente.  Pra começar, Sexta-Feira não aceitará o crédito de papel fornecido por Robinson (ele aceitará somente o crédito real, uma mercadoria); e, justamente por causa disso, o ciclo econômico nem sequer começará.  Mas em uma complexa economia monetária, o fato de o crédito ter sido criado do nada, sem lastro algum, não é algo perceptível: cada nota de crédito se parece com todas as outras, e, por causa disso, as notas são normalmente aceitas pelos tomadores de crédito.

Isso não altera a fundamental realidade de que nada pode ser produzido do nada e que investimentos empreendidos sem um financiamento real (poupança) irão necessariamente falir; mas explica como um período de boom econômico — um aumento no nível de investimento acompanhado de uma expectativa de maiores renda e riqueza futuras — pode ser iniciado (Sexta-Feira aceita a nota em vez de imediatamente recusá-la).  E explica por que demora algum tempo para que a realidade física se reafirme e revele que todas essas expectativas eram ilusórias.

Mas qual o problema de uma pequena crise para você?  Mesmo que o seu caminho seja permeado por repetidas crises, todas elas criadas pelo seu regime baseado em dinheiro de papel e políticas do banco central, do seu ponto de vista — do ponto de vista do chefe de estado e presidente do banco central — essa forma de redistribuição de riqueza (via políticas de “imprimir e emprestar”) em favor de si próprio e de seus amigos banqueiros, embora traga resultados menos imediatos do que aqueles conseguidos com uma simples política de “imprimir e gastar”, ainda é muito mais preferível, pois é bem mais difícil de ser percebida e de ser reconhecida por aquilo que realmente é.  Ao invés de ser visto como uma fraude e um parasita, você, nessa incessante busca por novas políticas de crédito fácil, pode até mesmo fingir que está engajado na altruísta tarefa de “investir no futuro” (e não de gastar em frivolidades) e de “curar” crises econômicas (e não de gerá-las).

Que mundo esse em que vivemos!

AUTOR:
Hans-Hermann Hoppe é um membro sênior do Ludwig von Mises Institute, fundador e presidente da Property and Freedom Society e co-editor do periódico Review of Austrian Economics. Ele recebeu seu Ph.D e fez seu pós-doutorado na Goethe University em Frankfurt, Alemanha. Ele é o autor, entre outros trabalhos, deUma Teoria sobre Socialismo e Capitalismoe The Economics and Ethics of Private Property

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

BitCoin Preocupa e YouTubers Já Estão VENDENDO Tudo!

BitCoin Preocupa e YouTubers Já Estão VENDENDO Tudo!


A especulação é normalmente confundida com o jogo, quando de facto é o oposto. O que o jogo envolve, quer sejam jogos de azar ou jogos de ação como a roleta russa, é criar um risco que de outra forma não existiria, de maneira a lucrar ou exibir certas aptidões ou falta de medo. 
O que a especulação econômica implica é lidar com o risco inerente de forma a minimizá-lo, deixando-o ser um fardo para quem quer esteja melhor preparado para lidar com ele. 

Quando um especulador de mercadorias se oferece para comprar trigo que ainda não foi plantado, isso facilita ao agricultor a plantação de trigo, em vez de estar a preocupar-se sobre qual será o preço de mercado mais tarde, na altura da colheita.

Um contrato de futuros garante ao vendedor um preço específico em avanço, independentemente de qual seja o preço de mercado na altura da entrega. Isto separa a agricultura da especulação econômica, permitindo que cada uma seja feita por pessoas diferentes, que se especializam em diferentes atividades econômicas. 
O especulador usa o seu conhecimento do mercado, e de análise econômica e estatística, para tentar chegar a uma melhor estimativa do que conseguiria o agricultor e é assim capaz de oferecer um preço que o agricultor considera um alternativa atrativa à de esperar para vender ao preço que prevalecerá no mercado na altura da colheita

[…] Na verdade, o agricultor paga ao especulador para carregar ele o risco, tal como cada um de nós paga à sua companhia de seguros. […] A especulação econômica é apenas outra forma de alocar recursos escassos – neste caso, conhecimento. Nem o especulador, nem o agricultor sabem como irão ficar os preços na altura da colheita. Mas acontece que o especulador tem mais conhecimentos dos mercados e de análise econômica e estatística do que tem o agricultor, da mesma forma que o agricultor sabe mais sobre a safra."

Thomas Sowell

BitCoin Preocupa e YouTubers Já Estão VENDENDO Tudo!



terça-feira, 2 de janeiro de 2018

O especulador é um benfeitor

O especulador é um benfeitor

[Extraido do livro Defendendo o Indefensável]

"Morte aos especuladores!" é a palavra de ordem durante todas as épocas de carestias que existiram.  Articulado por demagogos que pensam que o especulador causa a morte pela fome ao fazer subirem os preços dos alimentos, esse grito é apoiado com fervor pelas massas de analfabetos em economia.  Esse tipo de ideia — ou, antes, de falta de ideia — tem permitido a ditadores que imponham até pena de morte a comerciantes de alimentos que cobram preços altos em tempos de escassez.  E sem o menor protesto daqueles geralmente envolvidos com direitos e liberdades civis.

Entretanto, a verdade dos fatos é que, longe de causar a morte por fome ou a carestia, é o especulador quem as evita.  E, longe de salvaguardar a vida das pessoas, é o ditador quem tem de arcar com a responsabilidade maior, pois é o primeiro a causar a escassez.  Assim, o ódio popular ao especulador é uma perversão da justiça tão grande quanto se possa imaginar.  Podemos observar melhor isso ao considerar que o especulador é uma pessoa que compra e vende mercadorias com a intenção de lucro.  Ele é aquele que, segundo a velha frase, tenta "comprar na baixa para vender na alta".

Mas o que é que comprar na baixa, vender na alta e conseguir grandes lucros tem a ver com salvar as pessoas de morrerem de fome?  Adam Smith forneceu uma boa explicação com a doutrina da "mão invisível".  Segundo essa doutrina, "todos os esforços do indivíduo para empregar seu capital de modo a gerar produção podem ser do maior valor.  Em geral, ele não pretende promover o interesse público, nem sabe o quanto o está promovendo.  O que ele pretende é apenas a sua própria segurança, seu próprio ganho.  É levado, como que por uma mão invisível, a promover um fim que não fazia parte de sua intenção.  Ao perseguir seu próprio interesse, não raro promove o interesse da sociedade de forma mais eficaz do que quando realmente tem a intenção de promovê-lo."[1] O especulador bem-sucedido, portanto, agindo em seu próprio interesse egoísta, não sabendo nem se importando com o bem público, promove-o.

Em primeiro lugar, o especulador diminui os efeitos da escassez ao estocar alimentos em épocas de fartura, por motivos de lucro pessoal.  Ele compra e estoca alimentos para o dia em que possam escassear, possibilitando-lhe vendê-los a um preço mais alto.  As consequências de sua atividade são de longo alcance.  Elas atuam como um sinal para outras pessoas na sociedade, que são encorajadas, pela atividade do especulador, a fazerem o mesmo.  Os consumidores são encorajados a comerem menos e economizarem mais; os importadores, a importarem mais; os produtores rurais, a aumentarem suas plantações de cereais; os construtores, a construírem mais instalações para estocagem; e os comerciantes, a estocarem mais alimentos.  Assim, seguindo a doutrina da "mão invisível", o especulador, através de sua atividade de busca pelo lucro, faz com que sejam estocados mais alimentos em anos de fartura do que normalmente o seriam, com isso diminuindo os efeitos dos anos de escassez que estiverem por vir.

Entretanto, serão levantadas objeções de que essas consequências boas somente têm lugar se o especulador estiver certo em sua avaliação das condições futuras.  E se ele estiver errado?  E se ele previr anos de fartura, sair vendendo tudo e, com isso, encorajar outros a fazerem o mesmo, porém ocorrerem anos de escassez?  Neste caso, ele não seria responsável por aumentar a gravidade da escassez?

Sim.  Se o especulador estiver errado, ele será responsável por um grande dano.  Mas há forças poderosas em ação que tendem a eliminar os especuladores incompetentes.  Assim, o perigo que representam e o dano que causam são mais teóricos do que reais.  O especulador que faz conjecturas erradas sofre prejuízos financeiros graves.  Comprar na alta e vender na baixa pode desorientar a economia, mas certamente é devastador para os recursos financeiros do especulador. 

Não se pode esperar que um especulador tenha um histórico perfeito de previsões.  Porém, se ele erra com mais frequência do que acerta, tende a perder seu capital.  Assim, ele não permanecerá em posição de poder aumentar, com seus erros, a gravidade da escassez.  A mesma atividade que prejudica o público, automaticamente prejudica o especulador e, com isso, impede-o de continuar tal atividade.  Assim, a qualquer dado tempo, é provável que os especuladores existentes sejam de fato muito eficientes e, portanto, benéficos para a economia.

Comparemos isso à atividade dos órgãos do governo quando estes assumem a tarefa do especulador — isto é, de estabilizar o mercado de alimentos.  Eles também tentam delimitar a tênue linha entre estocar alimentos de menos e estocá-los demais.  Porém, se erram, não estão sujeitos a serem eliminados.  O salário de um funcionário do governo não sobe nem cai com o (in)sucesso de suas atividades especulativas.  Já que não é seu próprio dinheiro que é ganho ou perdido, pode-se esperar que o cuidado com que fazem suas especulações deixe muito a desejar.  Não há qualquer aperfeiçoamento diário, automático e contínuo da acurácia dos burocratas, como acontece com os especuladores privados.

Persiste a objeção, por várias vezes citada, de que o especulador causa a alta dos preços dos alimentos.  Se estudarmos cuidadosamente sua atividade, entretanto, veremos que o efeito total nada mais é do que a estabilização dos preços.

Em épocas de fartura, quando os preços dos alimentos caem extraordinariamente, o especulador compra.  Ele retira do mercado uma quantidade de alimentos, fazendo, com isso, subirem os preços.  Nos anos de escassez que se seguem, esse estoque de alimentos vai para o mercado, fazendo com que os preços caiam.  Naturalmente, os alimentos têm grande valor em tempo de escassez, e o especulador os vende por um preço maior do que o de compra original.  Mas os alimentos não ficam tão caros quanto ficariam na falta de sua atividade! (Devemos lembrar que o especulador não causa a escassez de alimentos, que, em geral, é resultado de safras ruins e de outros desastres naturais ou produzidos pelo homem.)

O efeito do especulador sobre os preços dos alimentos é o de estabilizá-los.  Em tempos de abundância, quando os preços estão baixos, o especulador, ao comprar e estocar alimentos, faz com que eles subam.  Em épocas de escassez, quando os preços estão altos, o especulador vende, fazendo com que eles caiam.  O efeito, para o especulador, é ter lucros.  Isso não é abominável; ao contrário: o especulador presta um serviço valioso.

Ainda assim, ao invés de respeitarem o especulador, os demagogos e seus seguidores insultam-no.  Mas proibir a especulação com alimentos teria, sobre a sociedade, o mesmo efeito de impedir que os esquilos estocassem nozes para o inverno — levaria à fome.

O avarento

O avarento jamais se recuperou do ataque que lhe fez Charles Dickens em Uma Canção de Natal.  Embora o avarento tivesse sido duramente criticado antes de Dickens, a figura de Ebnezer Scrooge tornou-se definitiva e passou para o folclore de nossa época.  Essa postura impregna até os livros de economia dos calouros.  Neles, o avarento é violentamente condenado e culpado pelo desemprego, por mudanças nos ciclos econômicos e pelas depressões e recessões econômicas. 

No famoso — ou, antes, infame — "paradoxo da poupança", ensina-se aos jovens estudantes de economia que, embora economizar seja sensato para um indivíduo ou uma família, pode ser perigoso para a economia como um todo.  A doutrina keynesiana predominante sustenta que, quanto mais poupança há numa economia, menor o gasto com o consumo, e, quanto menor o gasto, menor o número de empregos.

Já é hora de se pôr um fim a todos esses conceitos falsos.  Muitos e variados benefícios derivam da poupança.  Desde que o primeiro homem das cavernas guardou sementes de milho para plantar mais tarde, a raça humana vem tendo um débito de gratidão para com os entesouradores, os avarentos e os poupadores.  É a essas pessoas que se recusaram a exaurir todo seu estoque de riqueza — e, ao contrário, optaram por economizá-lo para quando precisassem —, que devemos toda a criação de capital que nos possibilita aspirarmos a um padrão de vida civilizado. 

É verdade, é claro, que essas pessoas se tornaram mais ricas do que seus próximos, e quem sabe por isso tenham ganhado sua inimizade.  Talvez todo o processo de poupança e acumulação tenha adquirido uma má reputação, junto com o poupador.  Mas essa aversão não é merecida.  Pois os salários ganhos pelas massas dependem intimamente da taxa à qual o poupador pode acumular dinheiro. 

Há, por exemplo, muitas razões que contribuem para o fato de que os trabalhadores americanos ganham mais do que, digamos, seus colegas bolivianos.  A educação, saúde e motivação do trabalhador americano têm papéis importantes.  Mas uma das principais contribuições para o diferencial de salário é a quantidade de capital acumulada pelos empregadores americanos, maior do que a acumulada pelos bolivianos.  E esse não é um caso excepcional.  O poupador tem sido instrumental, ao longo da história, em elevar as massas acima do estado de barbárie.

Talvez seja objetado que existe uma diferença entre poupar (ato reconhecido como produtivo no processo de acumulação de capital) e entesourar (reter dinheiro, deixando de gastá-lo com o consumo); e que ao passo que o poupador canaliza seu dinheiro para as indústrias de bens de capital, onde pode gerar algum bem, o dinheiro entesourado é completamente estéril.  O entesourador, alegar-se-á, reduz o dinheiro recebido pelos varejistas, forçando-os a demitirem empregados e reduzirem pedidos aos intermediários.  Os intermediários, por sua vez, são forçados a reduzir seu quadro de pessoal e cortar os pedidos aos atacadistas.  O processo todo, sob a influência dos acumuladores, repete-se por toda a estrutura de produção.  Quando demitidos, os empregados têm menos para gastar no consumo de mercadorias, intensificando assim o processo.  Entesourar é, portanto, encarado como estéril e destrutivo.

O argumento é plausível, exceto por um ponto crucial que este argumento inspirado na doutrina keynesiana deixa de levar em conta: a possibilidade de mudanças nos preços.  Antes de um varejista começar a despedir empregados e cortar pedidos, por causa das mercadorias não vendidas, ele, em geral, tenta baixar seus preços.  Faz uma liquidação ou usa outra técnica equivalente a uma redução do preço.  A não ser que seus problemas devam-se à falta de qualidade de seus produtos, isso basta para romper o círculo vicioso do desemprego e recessão.  Como assim?

Ao reter dinheiro que iria para o mercado consumidor e não disponibilizar esse dinheiro para a compra de bens de capital, o avarento causa uma redução do dinheiro em circulação.  A quantidade de bens e serviços continua a mesma.  Uma vez que uma das coisas mais importantes na determinação do preço em qualquer economia é a relação entre a quantidade de dinheiro e a quantidade de bens e serviços, o avarento consegue baixar os preços.  Consideremos um modelo simplista, mas não de todo impreciso, no qual todas as unidades monetárias da economia são oferecidos em troca de todos seus bens e serviços.  Assim, quanto menos forem as unidades monetárias, maior será o poder de compra de cada uma delas.  Já que o entesouramento pode ser definida como a ação de reduzir a quantidade de dinheiro em circulação, e, de resto, menos dinheiro significa preços mais baixos, logo se vê que o entesouramento leva a preços mais baixos.

Não há mal algum em diminuir o nível dos preços.  Muito pelo contrário, um dos grandes benefícios é que todas as outras pessoas, os "não avarentos", beneficiam-se de mercadorias e serviços mais baratos.

Tampouco os preços mais baixos causam depressões.  Ao contrário, a trajetória dos preços de alguns de nossos maquinários de maior sucesso tem acompanhado uma grande curva descendente.  Logo que começaram a ser produzidos, carros, televisores e computadores tinham um preço muito além do alcance do consumidor médio.  Mas a eficiência técnica conseguiu baixar os preços até que ficassem dentro do alcance da massa de consumidores.  Desnecessário dizer, a queda desses preços não causou qualquer depressão ou recessão.  Na verdade, os únicos homens de negócios que sofrem ao enfrentar uma tendência dessas são os que seguem a análise keynesiana e não reduzem seus preços frente a uma queda de demanda. 

Porém, longe de causar uma depressão cada vez maior, como sustentam os keynesianos, alguns homens de negócios conseguem apenas levar a si próprios à falência.  Quanto ao resto, os negócios continuam tão satisfatórios quanto antes, mas com um nível de preços mais baixo.  A causa das depressões, portanto, está em alguma outra parte.[2]

Da mesma forma, não há substância na objeção ao entesouramento sob a alegação de que ele é desagregador e que continuamente força a economia a se ajustar.  Mesmo que fosse verdade, isso não justificaria condenar o ato de entesourar, pois o livre mercado é preeminentemente uma instituição de ajuste e reconciliação de tendências divergentes e em constante mutação.  Para criticarmos o enteouramento por essa razão, também teríamos de criticar, por exemplo, as frequentes mudanças dos estilos de vestir, pois elas constantemente invocam o mercado em busca de um ajuste de "sintonia fina". 

Entesourar nem mesmo é um processo disruptivo, pois, para cada avarento que estufa o colchão de dinheiro, existem inúmeros herdeiros de entesouradores rasgando esses colchões.  O cenário sempre foi esse e ele não vai mudar drasticamente

Também não possuem mérito as alegações de que a acumulação de dinheiro em espécie pelo avarento é estéril, por não render juros, como renderia se o dinheiro estivesse depositado num banco.  Será que o dinheiro que as pessoas carregam na carteira poderia ser caracterizado como estéril, já que também não rende juros?  Se as pessoas, voluntariamente, abrem mão de ganhar juros e, em vez disso, guardam o dinheiro vivo, em pilhas, o dinheiro pode parecer inútil de nosso ponto de vista, mas, sem dúvida, do ponto de vista do indivíduo é útil. 

O avarento pode querer seu dinheiro, não para gastar mais tarde, não para cobrir a diferença entre despesas e receitas, mas, antes, pelo puro prazer de segurar pilhas de dinheiro.  Como pode o economista, educado na tradição da maximização da utilidade, caracterizar o prazer de estéril? Os amantes da arte que colecionam pinturas e esculturas raras não são considerados como que exercendo uma atividade estéril.  As pessoas que têm cães e gatos unicamente por diversão, e não como investimentos, não são descritas como exercendo uma atividade estéril.  Os gostos diferem de pessoa para pessoa, e o que é estéril para uns, pode não o ser, nem de longe, para outros.

A acumulação de grandes pilhas de dinheiro pelo avarento só pode ser considerada heroica.  Beneficiamo-nos com os níveis reduzidos de preços que disso resultam.  O dinheiro que temos e que estamos dispostos a gastar fica mais valorizado, permitindo que o comprador compre mais com a mesma quantia.  Longe de ser prejudicial à sociedade, o avarento é um benfeitor, aumentando nosso poder de compra a cada vez que ele pratica seu entesouramento.

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[1] Smith, Adam.  A Riqueza das Nações, Random House, 1973 (paráfrase), p.243.  (N.A.)

AUTOR: Walter Block
é membro sênior do Mises Institute e professor de economia na Loyola University, Nova Orleans.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Os benefícios da especulação e a direita canhota

Os benefícios da especulação e a direita canhota

O mercado de ações é um componente quintessencial do capitalismo.  Murray Rothbard certa vez perguntou a Ludwig von Mises se havia alguma linha nítida que separava um estado fortemente intervencionista de um estado abertamente socialista.  
Mises respondeu: "Não é possível haver uma genuína propriedade do capital sem um mercado de ações: não há como haver um socialismo verdadeiro se tal mercado puder existir".[*]

Apesar de toda a sua importância, o mercado de ações continua sendo algo misterioso para muitos, até mesmo para várias pessoas que, em outros contextos, são defensoras convictas do livre mercado.  Pessoas que não têm problema algum em defender executivos do mundo da publicidade ou agiotas, normalmente têm dificuldades para defender especuladores e corporate raiders (especuladores que articulam agressivas tomadas de controle acionário).  Entretanto, esses vilões populares na realidade efetuam serviços vitais, e políticas governamentais contra essas "aquisições hostis" apenas nos deixam mais pobres.

O mercado de ações: o que é?

No nível mais básico, o "mercado de ações" simplesmente se refere ao mercado abstrato que comercializa a propriedade de empresas.  Existem lugares físicos, chamados bolsa de valores, onde compradores e vendedores se encontram — a bolsa mais famosa do mundo sendo, é claro, a bolsa de valores de Nova York, localizada em Wall Street nº 11.  Porém, o "mercado de ações" é um ponto de encontro intangível de todos esses compradores e vendedores, pessoas de todos os tipos, desde engravatados que operam in loco na bolsa até corretores que executam suas transações desde seus laptops nas praias do Taiti.

No mercado de ações, as pessoas compram e vendem ações que representam uma fatia de propriedade de uma empresa.  Por exemplo, se a Empresa XYZ é composta por 10.000 ações, e o João da Silva compra 1.000 ações, então, em linhas gerais, ele agora se tornou dono de 10% dos ativos e passivos do balancete da Empresa XYZ.

As pessoas frequentemente pensam que as empresas vivem sob uma espécie de piloto automático.  É óbvio que isso não existe.  Alguém ou um grupo de pessoas têm de decidir como uma empresa será conduzida.  Quanto ela deve investir em pesquisa e desenvolvimento (P&D)?  Quantas fábricas ela deve fechar — ou abrir?  Ela deve emitir mais títulos para conseguir financiamento para adquirir o controle acionário de uma empresa menor em uma indústria relacionada?  Ela já deve lançar o novo modelo de sua linha exclusiva com o intuito de bater a concorrência, mesmo que todos os problemas ainda não tenham sido solucionados, ou deve esperar mais um pouco?

Na prática, é a direção executiva quem tipicamente toma essas decisões.  Na mente do público, toda a responsabilidade está nas mãos do presidente da empresa.  Mas essa é uma análise superficial, porque o presidente é um empregado que pode ser demitido.  Em última instância, os donos da empresa são os seus acionistas, e eles (coletivamente) possuem a última palavra sobre suas operações.

Nesse contexto, pode-se dizer que o propósito do mercado de ações é determinar quais pessoas são as acionistas das várias empresas.

A importância dos preços corretos das ações

A economia convencional ensina que, sob certas condições, o mercado descentralizado e desimpedido leva a uma eficiente alocação dos recursos entre as várias indústrias porque tal arranjo consegue alinhar os interesses dos empreendedores com os dos consumidores: a busca pelo lucro dos empreendedores acaba por satisfazer os desejos dos consumidores.

O preço relativamente alto do ouro, por exemplo, garante que o metal amarelo seja direcionado para a produção de jóias e tratamento de artrite.  Metais mais baratos, como o alumínio, são utilizados mais abundantemente — de modo que as pessoas o utilizam para embalar marmitas e, já no dia seguinte, jogam-no fora após um único uso.  Por outro lado, ninguém se desfaz de ouro regularmente.

Esse mesmo processo é válido para os preços não apenas de vários metais, mas também de ações de empresas.  Uma ação de preço irrisório indica uma empresa que o mercado particularmente não valoriza.  Um cidadão comum pode despender seu salário mensal na compra de uma porção considerável dessa empresa, caso ele assim o queira.

Em comparação, não importa o quão certo um homem esteja de que ele pode alterar os rumos da Microsoft em três meses, a menos que ele seja um bilionário, ele não será capaz de alterar o destino da gigante por si só.  O preço da ação multiplicado pelo número de ações lançadas representa, em última instância, o preço total de venda empresa.  O preço relativamente alto do ouro indica que ele é uma commodity escassa e que, portanto, deve ser tratado com o cuidado correspondente.  Da mesma forma, o valor de mercado (Market Cap) da Microsoft é de mais de US$ 200 bilhões, indicando que o mercado valora a empresa muito favoravelmente.

Consequentemente, as pessoas que em última instância controlam o destino da Microsoft (assim como de outras empresas) terão uma fabulosa quantia de riqueza dependente de suas decisões.  Isso não garante que elas tomarão as decisões corretas, é claro.  Mas é fato que isso torna muito mais provável que alguns dos mais capazes técnicos e especialistas da área estejam envolvidos nos processos de tomada de decisão da empresa.



A bolsa de valores e o investimento corporativo


Uma reclamação popular sobre a bolsa de valores é que ela não direciona a poupança para investimentos produtivos.  De acordo com esse raciocínio, se alguém tira $1.000 de sua poupança para comprar ações da empresa Acme, esse alguém não estará de fato "investindo" na Acme, mas apenas transferindo dinheiro para o indivíduo que até então era o dono dessas ações da Acme.  A empresa não põe suas mãos nesse $1.000; tal dinheiro não estará disponível para a Acme poder expandir suas instalações ou contratar novos talentos.

Mas essa visão é superficial.  Em primeiro lugar, as empresas podem, com efeito, levantar capital diretamente de novos investidores por meio de uma oferta pública não inicial de ações (SEO), na qual a empresa emite novas ações para o público comprador.  (Isso permite que uma empresa se expanda por meio da emissão de mais participação acionária, ao invés de por meio do financiamento via emissão de títulos, algo que gera endividamento).

Porém, mesmo no caso mais típico, no qual um novo investidor compra ações "utilizadas" — ações em posse de outro indivíduo —, essa capacidade de vender ações que já foram emitidas permite que a empresa tenha acesso a mais fundos para investimento.  Ninguém nega que uma empresa recebe uma forte injeção de capital quando ela vende suas ações pela primeira em uma oferta pública inicial (IPO).  Mas é a existência de um "mercado secundário" que estimula o valor de revenda dessas ações já existentes e torna os investidores propensos a pagar preços maiores por elas.  Em outras palavras, a empresa Acme recebeu mais capital dos investidores quando ela abriu seu capital justamente porque esses investidores sabiam que, caso a empresa fosse bem sucedida, novos investidores iriam em algum momento futuro se interessar em uma fatia da empresa, e aceitariam pagar, por exemplo, $1.000 para comprar ações que presumivelmente já subiram de preço desde o IPO.

Finalmente, temos de considerar o que o recebedor do nosso hipotético $1.000 faz com o dinheiro.  Se ele vai às compras e gasta tudo com roupa chique, então é claro que a Acme não terá ganhado nenhum fundo adicional para investimentos; o investidor que desembolsou $1.000 de sua poupança para comprar as ações é contrabalançado pelo aumento de $1.000 no consumo do indivíduo que vendeu as ações.

Entretanto, se o vendedor das ações da Acme pegar esses $1.000 e investi-lo em outro ativo (por exemplo, em ações da empresa XYZ, a qual acabou de abrir seu capital), então terá havido um aumento líquido na poupança.  Porém, mesmo nesse caso, não terá havido um investimento líquido na Acme, mas sim na empresa XYZ.  Portanto, o investidor que gasta $1.000 comprando ações da Acme não está, naquele momento, dando à Acme $1.000 a mais para ela investir; tudo que o investidor fez foi permitir que o proprietário original das ações transferisse sua poupança para outro lugar, ao mesmo tempo em que a Acme permaneceu indiferente.

A função social da especulação

Na nova sequência do filme Wall Street, um Gordon Gekko agora mais velho — talvez em uma mera tentativa de vender mais cópias do livro —, diz a uma plateia jovem que a "mãe de todos os males" é a especulação.  Outras cenas do filme reforçam a ideia comum de que os especuladores não produzem nada de fato, mas simplesmente "movem o dinheiro de um lugar para outro".

Esse desdém pela especulação é parte de um ódio mais profundo à figura do "atravessador".  Por exemplo, alguém que compra laranjas na Flórida por $0,75 e as revende em Nova York por $1 será condenado por estar simplesmente "movendo frutas de um lugar para outro".  Porém, tal atravessador está definitivamente prestando um grande serviço para os apreciadores de frutas cítricas de Nova York — uma laranja suculenta a 1.500km de distância não é muito útil.

Da mesma forma, um especulador bem sucedido obtém lucros para si próprio ao mesmo tempo em que efetua serviços úteis para terceiros.  O lema do especulador é "compre na baixa, venda na alta" (ou "venda a descoberto na alta e compre de volta na baixa").  Se o especulador obtiver êxito, isso significa que ele tornou os preços das ações menos volúveis e na realidade os empurrou para seus valores futuros mais rapidamente do que teria ocorrido normalmente — isto é, na ausência da especulação.

Um exemplo simples irá ilustrar essa ideia.  Suponha que um especulador veja que as ações da empresa Acme Painéis Solares estão atualmente sendo vendidas a $10.  Entretanto, o especulador acredita que haverá uma guerra no Irã dentro de alguns meses e que os outros agentes do mercado ainda não avaliaram completamente esse fato.  O especulador prevê que, quando a guerra estourar, o preço do petróleo irá disparar para uns $200 o barril e que os preços das ações das empresas de energia alternativa irão igualmente subir.

O especulador, portanto, irá correr para comprar ações da Acme Painéis Solares, as quais ele acredita estarem tremendamente subavaliadas em $10.  Suas compras agressivas irão empurrar os preços para, digamos, $13 por ação.  Se e quando a guerra estourar, o preço das ações da Acme subirá para $20, valor em que o especulador irá vender suas ações, garantindo-lhe um lucro líquido por ação de $7 a $10.

O cidadão comum — na verdade, o próprio Gordon Gekko no primeiro filme Wall Street — acha que isso foi um jogo de soma zero e que o lucro do especulador gerou um prejuízo para alguma outra pessoa.  Isso é verdade apenas no sentido mais estreito da análise, quando se observa que um indivíduo que vendeu suas ações para o especulador a $11, "deixou de ganhar" $9, os quais ele poderia ter ganhado caso tivesse esperado mais um pouco e vendido quando o preço já estivesse em $20.

Porém, as medidas do especulador trouxeram benefícios claros à sociedade.  Em primeiro lugar, ele suavizou os solavancos nos preços das ações da Acme.  Ao comprar ações subvalorizadas, ele empurrou para cima os preços. (Da mesma forma, se ele vender a descoberto uma ação sobrevalorizada, ele estará pressionando para baixo os preços).  Ao invés de as ações da Acme pularem de $10 para $20 quando a guerra estourar, elas irão pular apenas de $13 para $20, pois as agressivas compras feitas pelo especulador já haviam reduzido 30% da diferença.

Ao reduzir a volubilidade do preço das ações, os especuladores reduzem um pouco do risco de se manter ações nas carteiras.  Por exemplo, não é necessariamente verdade que a pessoa que vendeu prematuramente para o especulador a $11 tenha "perdido" $9 para o malicioso aproveitador.  É perfeitamente possível que tal pessoa tenha precisado vender suas ações da Acme, talvez porque tenha perdido o emprego ou simplesmente porque a mensalidade da escola do seu filho subiu de novo.  Assim, o especulador na verdade apenas fez com que essa pessoa — que havia planejado vender suas ações mesmo se elas tivessem permanecido a $10 — ficasse mais rica.

Falando mais geralmente, ao antecipar mudanças futuras nos "fundamentos" e traduzi-las em valores atuais para as ações, os especuladores recompensam mesmo os investidores de longo prazo, o tipo de investidor do qual todos gostam (em contraste com especuladores de curto prazo e de olho no dinheiro rápido).  Por exemplo, se um investidor institucional (institutos financeiros que investem grandes quantias de dinheiro) imagina ter descoberto uma empresa sólida que irá pagar altos dividendos e que permanecerá ativa por pelo menos vinte anos, são os especuladores que irão ajudar a fazer com que os preços diários das ações dessa empresa não se desviem para muito longe da realidade de longo prazo.  Se ocorrer um pânico financeiro e os acionistas começarem a vender ações de todos os tipos, são os especuladores que irão interromper a sangria e adquirir "promoções" a preços de liquidação.

Isso mostra que os especuladores fornecem liquidez ao mercado de ações e o tornam mais lucrativo para que outros investidores, voltados para o longo prazo, façam seu dever de casa e invistam parte de sua poupança em empresas que acreditam ter um futuro sólido.  Um grande risco de tal investimento é a iliquidez — o investidor, talvez por estar com dificuldades, pode ter de vender a um preço muito menor do que poderia obter caso dispusesse de mais tempo.  Porém, os especuladores abrandam esse risco.  Se o preço ficar muito abaixo "do que a ação realmente vale", então esse será exatamente o momento em que um especulador terá o incentivo para entrar em cena e comprar.


Implicações políticas

Agora que já vimos os serviços úteis que os especuladores fornecem, podemos tentar tirar duas conclusões acerca de políticas governamentais.  A primeira é que o governo tentar salvar empresas "grandes demais para falir" irá apenas solapar o processo autocorretivo descrito acima.  Com efeito, resgates do governo podem perversamente transformar a especulação em uma força efetivamente perniciosa.   

Observe que não há nada na nossa argumentação que exclua a possibilidade de uma "bolha", em que os preços das ações vão subindo cada vez mais por causa da própria especulação.  Se os especuladores acreditam que as ações da empresa XYZ irão pular de $20 para $30, então no curto prazo eles podem sim provocar uma profecia auto-realizável.  Com efeito, quanto mais o preço de XYZ continuar subindo, mais e mais pessoas serão atraídas para a especulação, o que pode acelerar ainda mais o processo.

Ainda que bolhas localizadas possam ocorrer em um livre mercado, na medida em que uma vai se intensificando, os especuladores têm cada vez mais a ganhar caso façam uma especulação baixista (vender a descoberto) com essa ação.  Isso ajudará a derrubar seu preço, tornando a bolha menos extremada e trazendo o preço para mais perto do seu "correto" valor de longo prazo.  É verdade que especuladores podem obter ganhos de curto prazo ao participar de um boom insustentável, mas também é verdade que, se eles não saírem a tempo, o mercado irá puni-los com enormes prejuízos.  E suas perdas, vale ressaltar, serão proporcionais ao quão "artificial" era o preço da ação durante a bolha.

Essa restrição vital ao crescimento de uma bolha é anulada por resgates governamentais ou por outras intervenções concebidas para reflacionar bolhas após elas terem sido estouradas.  Em tal ambiente, a realidade fica distorcida.  Ao impedir que as pessoas tenham de lidar com seus erros durante o declínio, o governo está removendo a única maneira que o mercado tem de disciplinar os especuladores.

Uma segunda e menos óbvia implicação é que as regulamentações concebidas para frustrar as atividades dos corporate raiders acabam na realidade prejudicando os acionistas e reduzindo a eficiência econômica.  Considere o supostamente pior cenário possível: um especulador utilizando dinheiro emprestado para comprar o núcleo de controle (quantidade de ações que possibilita direcionar as atividades de uma corporação) de uma empresa, demitindo todos os empregados e, em seguida, vendendo todos os ativos para quem fizer a melhor oferta.  Para entender por que isso pode ser socialmente útil, precisamos entender qual tipo de empresa é vulnerável a esse "agressor": será necessariamente uma empresa que tenha um preço de compra (preço da ação multiplicado pelo número de ações) mais baixo que o preço de seus ativos individuais menos seu passivo.

Em outras palavras, o corporate raider é um especulador que vai lucrar ao desintegrar uma empresa apenas se ele puder redirecionar os ativos dessa empresa — fábricas, estoques, maquinários, ferramentas etc. — para as mãos de outras empresas, sob a qual eles serão mais produtivos.

As fronteiras da cada empresa não são arbitrárias; há motivos econômicos por trás do fato de o Google possuir uma enorme capacidade de cálculo computacional, ao passo que a Bayer possui instalações adequadas para pesquisas com drogas.  Em casos extremos, quando uma indústria muda rapidamente ou a administração é particularmente inepta, o caminho adequado é que a própria empresa seja dissolvida, de modo que seus recursos sejam retirados de uma organização relativamente ineficiente e sejam aplicados em diferentes linhas de produção, onde serão mais úteis.  Embora esse processo seja particularmente doloroso para os trabalhadores envolvidos, em uma sociedade livre as demissões são a única maneira de sinalizar quando a mão-de-obra está sendo utilizada em empreendimentos muito pouco produtivos.

Uma vez entendida a função vital desempenhada pelo mercado de ações e pela (bem sucedida) especulação, o argumento a favor da intervenção governamental nos mercados financeiros fica consideravelmente abalado.

AUTOR:
Robert P. Murphy
é Ph.D em economia pela New York University, economista do Institute for Energy Research, um scholar adjunto do Mises Institute, membro docente da Mises University e autor do livro The Politically Incorrect Guide to Capitalism, além dos guias de estudo para as obras Ação Humana e Man, Economy, and State with Power and Market.  É também dono do blog Free Advice.

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Notas

[*] Ver Murray N. Rothbard, "A Socialist Stock Market?" em Making Economic Sense (Auburn, AL: Ludwig von Mises Institute, 1995), p. 356. Disponível em http://mises.org/econsense/ch103.asp.

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